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'O problema do Maranhão não é o combate ao Sarney, mas ao sarneyzismo'

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Data de Publicação: 8 de outubro de 2006
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DEPUTADO FEDERAL ROBERTO ROCHA

"A questão no Maranhão não é o combate ao Sarney, isso é uma visão equivocada. O Sarney nem político do Maranhão é. A questão é o 'sarneyzismo', o modelo e o sistema perverso, cruel e excludente que faz com que ao final do dia um milhão de maranhenses não tenham o que comer direito; que tem mais de um milhão de analfabetos, maior de mortalidade infantil, de trabalho escravo, de tudo que não presta nesse país". A análise é do deputado federal eleito, Roberto Rocha, que reconquistou o mandato com a maior votação já dada a um deputado federal no Maranhão - 139.248 votos - em entrevista concedida quarta-feira na Rádio Educadora, programa do Silva Alves

Com autoridade e lideranças outorgadas pelos maranhenses, Roberto Rocha diz acredita na vitória do Dr. Jackson Lago para o Governo e também faz sua crença de que o Maranhão deixará de ser o último em tudo. "O Maranhão é o ultimo, inclusive, a sepultar esse sistema oligárquico, o que já foi feito agora na Bahia, foi feito no Tocantins e vamos fazer aqui. Vamos comemorar a adesão à independência do Maranhão", disse, entre outras declarações, das quais reproduzimos algumas.

Silvan Alves: "Deputado Roberto Rocha, muita gente, inclusive analistas políticos, ficou surpresa com essa votação. O senhor se considera um campeão de votos e a que se deve essa votação expressiva que o senhor teve?".

Roberto Rocha: Penso que isso é fruto do amadurecimento político do nosso povo, fruto do permanente avanço da consciência política dos maranhenses. Nós temos um Estado que no que mapa político brasileiro está na periferia, nós temos um Estado onde a sua grande maioria vive na zona rural que é desassistida, desinformada e muitas vezes sem esperança, tanto que vão para outros estados em busca de melhores dias. Em razão disso, as informações chegam mais tarde a muita gente e o processo de consciência é mais demorado (...), mas eu creio que esse processo de politização do povo está avançando e não tenho duvida que a minha votação como candidato a deputado federal, fazendo uma campanha sem mandato e concorrendo com muita gente forte, com mandato, com cargos. Mesmo assim, fui votado em todos os municípios do Estado o que me deixou extremamente satisfeito. Eu sou assim um devedor do povo maranhense e como devedor só tenho uma maneira de pagar: dedicando 100% do meu tempo e atenção a esse povo, trabalhando no exercício do mandato para que a gente possa continuar tendo o respeito dessa gente. Eu creio que isso foi uma resposta à seriedade, ao trabalho, ao compromisso e ao espírito publico, porque o Maranhão é um Estado pobre, mas a pobreza maior que reina aqui é a pobreza de espírito em determinadas pessoas. E eu creio a demonstração de desprendimento do deputado Roberto Rocha foi julgado nessa campanha e a população me colocou com todas as forças de volta ao Congresso Nacional.

Silvan Alves: "Como o senhor avalia a eleição majoritária onde muitas previsões apareceram, institutos de pesquisas indicando que a eleição estava definida no primeiro turno e, de repente, o povo foi lá e mostrou outro resultado, totalmente diferente daquele que era apresentado?

Roberto Rocha: "É verdade. Mas o que não se pode ter duvida é que nós temos no Maranhão a coisa mais concreta, paradoxalmente, que é um sentimento que está preso nas pessoas e que, pela política da intimidação e do medo, esses sentimentos ficam contidos. As pessoas vão soltando esse grito aos poucos. Essa campanha foi uma campanha diferente, porque feita sob uma nova legislação eleitoral, que proibiu muita coisa, como os grandes eventos, o showmício, que chamavam as pessoas mais rapidamente para o processo da campanha. Dessa vez, as pessoas foram sendo contagiadas aos poucos, na base do corpo a corpo. Então quando as pessoas se sentiram contagiadas, quando elas se deram conta do processo eleitoral, quando nós candidatos conseguimos quebrar a indiferença das pessoas com a campanha, isso se deu em quinze, vinte, vinte e cinco dias, menos de mês Foi então que a Roseana começou a despencar, porque, na verdade, aquilo no copo não era leite, era espuma; leite era pouco, tinha mais espuma. Ela é produto de marketing construído dentro de um laboratório e aí aquele cosmético, aquela plástica toda foi desaparecendo com o suor do povo, com o calor das pessoas. e isso veio a fazer que o Jackson e o Vidigal crescessem, e ela tinha que cair. Foi o que deu. E ela não parou de cair, não há um único motivo para ela deixar de cair mais, porque a historia era que não tinha segundo turno. Veio o segundo turno e com ele morreu medo; sepultamos a intimidação, o pavor, o medo, a invencibilidade. Então, as próximas pesquisas, eu não tenho duvida, já devem vir com o Jackson na frente.

Silvan Alves: Sendo o senhor o fenômeno dessa eleição, mas fez uma campanha sem mandato, sem uma estrutura financeira forte. Isso estaria ligado ao fato de, como deputado federal ter sido bastante atuante, como mostraram levantamentos do Congresso Nacional, ou seja, essa sua votação é ainda o respaldo da sua atuação quando parlamentar"?.

Roberto Rocha: "Perfeitamente, essa historia de que o povo não tem memória não é verdade. A vida é muito dinâmica, a vida publica é mais dinâmica ainda e falta de fatos se supera com fatos. O povo sabe o que quer, o povo sabe quem faz. Eu fui deputado durante doze anos e só fiz o bem para as pessoas; eu nunca usei o mandato para perseguir ninguém, eu nunca criei problemas que pudessem ser levados para o campo pessoal, o meu debate é no campo político. Eu sou filho de um aliado histórico do senador Sarney, meu saudoso e querido pai [Luiz Rocha], amigo dele desde que ele desafiou o poder do vitorinismo no Maranhão. E com o Sarney ajudou a construir o Estado, iniciar um processo de democratização no Maranhão. O Sarney foi importante nos anos 60, quando rompeu com aquela estrutura de poder para o Maranhão dar um salto de qualidade. Isso, é preciso ser dito, foi feito. Acontece que em seguida, anos depois, os filhos do Sarney se apoderaram do poder e transformaram o Maranhão numa permanente confusão entre território e quintal. Eles têm a sensação de que, criados em palácios, têm propriedade em tudo. Quando vêem alguma coisa publica, acham aquilo pertence a eles. As pessoas físicas, as pessoas jurídicas, as empresas quando querem fazer um empreendimento no Maranhão não podem fazer se não dando parte para eles. Isso aqui não é território de ninguém particular, isso aqui é uma terra de gente boa que quer trabalhar, que quer prosperar. Essa gente não tem o direito de permitir que nos últimos dez anos um milhão de maranhenses tenham ido embora do estado em busca de novas oportunidades, porque as pessoas perdem tudo, as pessoas perdem o dinheiro, perdem a liberdade. Mas as pessoas quando perdem a esperança perdem tudo, e eles estão fazendo o povo perder a esperança. Portanto, a ida das eleições para o segundo turno é muito mais a vitória da esperança sobre o medo".

Silvan Alves: "Bom o senhor falou agora pouco da questão do reconhecimento da importância do Sarney quando houve essa mudança no Maranhão há quarenta anos atrás. E porque hoje se prega o término da oligarquia Sarney no Maranhão?".

Roberto Rocha: Olha, a questão no Maranhão não é o combate ao Sarney isso é uma visão equivocada, o Sarney nem político do Maranhão é. A questão é o "sarneyzismo", o modelo e o sistema perverso cruel e excludente que faz com que ao final do dia um milhão de maranhenses não tenham o que comer direito, que tem mais de um milhão de analfabetos, que para cada três maranhenses dois vivem abaixo da linha da pobreza, o maior índice de analfabetismo, de mortalidade infantil, de trabalho escravo, de tudo que não presta nesse país.

O Maranhão é o ultimo em tudo. O Maranhão é o ultimo inclusive a sepultar esse sistema oligárquico. Mas, como ocorreu agora na Bahia e no Tocantins, vamos fazer no Maranhão. O ultimo, é verdade, mas isso é uma questão histórica. Vamos comemorara como se fora a adesão à independência do Brasil, quando o Maranhão foi o último a aderir. O maranhense é um povo que luta e nós temos a convicção de que o nosso problema no Maranhão não é combater o Sarney, nada: primeiro porque nós não fazemos política no campo pessoal, nossas diferenças são de natureza política, o nosso discurso, o nosso debate é no campo político. Em segundo lugar, porque o senador Sarney é senador no Amapá, ele não é nem político no Maranhão.

Regina, do Renascença: "Tem um comentário na cidade que a Presidência do Tribunal de Contas do Estado estaria pressionando prefeitos e ex-prefeitos para apoiar uma determinada candidatura, o que o senhor tem a me dizer deputado?"

Roberto Rocha: "Eu tenho dito que só corre riscos quem é livre. Eu corro riscos, corri na eleição passada, fiquei sem mandato e não perdi nenhum pedaço de mim. Continuei emitindo as minhas opiniões com a coerência que o político e as pessoas tem que ter. O que é coerência? É você pensar, dizer e fazer a mesma coisa. Você não pode pensar uma coisa e dizer outra. O que você diz no palanque você tem que fazer sentado. Então eu emitia minhas opiniões mesmo sem mandato. Eu escrevi duas vezes sobre o TCE, como escrevi sobre a Assembléia, como escrevi sobre as nossas instituições. O Maranhão precisa mudar, isso eu digo em alto e bom som. Essa mudança é uma mudança institucional profunda, nós temos que mudar inclusive as nossas instituições, porque as instituições não são feitas só de paredes e corredores, são feitas de pessoas, muitas das quais estão aí há quarenta anos com o mesmo modelo político. Só existe democracia quando você tem um mínimo de equilíbrio nas forças políticas. No Maranhão, a concentração de poder é brutal, tudo que tem poder o Sarney quer que esteja nas mão deles. E aí quando o modelo é assim não tem controle. O que é que controla poder fora da democracia? O que controla poder é carabina , é fuzil. Na democracia, o que controla poder é poder. Então instituição que tem poder só pode ser controlada por instituição que tem poder. A função do TCE, por exemplo, é exercer o controle sobre as contas dos três poderes, não é exercer pressão sobre prefeito, ali não é um comitê eleitoral do PFL, mesmo vergonhosamente tendo o nome da Roseana na sua fachada. Nem a sede do PFL teve a coragem de colocar o nome de Roseana na fachada em respeito a outros filiados do Partido, pois o Tribunal de Contas do Estado, desavergonhadamente, colocou o nome de Roseana na fachada. Então quero dizer aqui, que não aceito, como cidadão, não estou dizendo isso porque fui eleito não, disse, escrevi e reitero aqui o que disse: Não aceito que o Tribunal de Contas do Estado do Maranhão sirva de instrumento de pressão para coagir, chantagear prefeitos, ex-prefeitos e presidentes de Câmara. Não posso aceitar que o senador Sarney, que tem influência no governo federal, que manda e desmanda no governo de Lula e suas instituições, inclusive na Polícia Federal; que a use para coagir, pressionar membros do nosso Poder, membros do Tribunal de Contas do Estado (...). Então eu quero dizer aqui, com todas as letras: nós vamos reagir com muita indignação na primeira oportunidade concreta que eu tiver sobre esses assuntos de que estão sendo pressionados pelo Tribunal de Contas, eu vou reagir com indignação e denunciando nacionalmente esses fatos.

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