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O último coronel

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Data de Publicação: 8 de outubro de 2006
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ESPECIAL

Porque será que o Maranhão (ainda) resiste como um dos últimos redutos do coronelismo e da oligarquia sedenta de poder? A reportagem do Jornal Pequeno foi ouvir historiadores e pesquisadores políticos, além do povo nas ruas, que acreditam que a maioria dos votos da família Sarney está concentrada nas classes menos esclarecidas

A cena foi emblemática.

Um dos (últimos) golpes sofridos recentemente por Antonio Carlos Magalhães na Bahia - além da perda do filho a quem ele queria brindar com a presidência da República e a sua própria cassação - foi a perda de seu aliado, o governador Paulo Souto para o petista Jaques Wagner na eleição para o governo daquele Estado. Contra tudo e contra todos, principalmente contra o Ibope, que tentou de todas as formas fazê-lo vitorioso apenas com pesquisas.

Abalado, ACM, o ex-todo-poderoso baiano, limitou-se a dizer: "O carlismo não morre, é imortal. Vai voltar breve". Coitado, ainda tenta enganar-se a si mesmo. Tal qual o filho de Nabucodonozor na Bíblia que, no auge do império, ouviu de Deus a frase fatal: "Foi tomado de ti o reino".

No Maranhão, milhares de homens e mulheres de bem sonham que a mesma frase seja dita ao último coronel que ainda resiste: o senador José Sarney. Escapou do vexame de não ser reeleito no Amapá e agora luta bravamente para eleger a filha neste segundo turno. Aliados mais próximos comentam que Sarney está com os nervos à flor da pele.

De acordo com historiadores, o título de coronel remonta à criação da Guarda Nacional, em 1831, pelo governo imperial, em substituição às milícias e ordenanças, com a finalidade de defender a constituição e a integridade do império. Como seus quadros eram nomeados pelo governo central ou pelos presidentes de província, o tráfico de influências e a corrupção política logo dominaram o sistema. A patente de coronel tornou-se equivalente a um título nobiliárquico, concedida de preferência aos senhores de terras, que assim adquiriam autoridade para impor a ordem sobre o povo e os escravos. Sem vigilância direta, perdido nas distâncias e defendido por um partido nos excessos que cometesse, o coronel personificou a invasão particular da autoridade pública, favorecido pelo sistema que o nomeava e sustentava.

Ao lado do coronel detentor de patente surgiu à figura do coronel sem cargo, qualificado pelo prestígio e pela capacidade de mobilização eleitoral. Os dependentes submetiam-se ao senhor da terra pela persuasão e pela proteção que caracterizavam a relação de "compadrio"; em caso de resistência, eram expulsos da fazenda e perseguidos. Essa foi, durante muitas décadas, a configuração das relações políticas brasileiras nas áreas rurais e ainda domina nos lugares menos esclarecidos.

Doutor em História, o professor Lyndon de Araújo Santos comentou que a oligarquia Sarney não pode ser encaixada, por exemplo, ao sentido clássico de oligarquia surgido na Grécia. "Quanto à palavra, que significa "governo de poucos", ela pode ser aplicada, mas com critério. Essa é realmente uma família que tem uma malha de relações hierarquizadas políticas e econômicas, mas que sustenta principalmente na confiança de pessoas menos esclarecidas", afirmou.

Ele justificou seu comentário quando afirmou que nas principais cidades do interior do Maranhão a senadora Roseana Sarney perdeu a eleição no primeiro turno, da mesma forma que em São Luís, Bacabal e Imperatriz. "Mas quanto mais atrasado o interior, melhor para a família, pois eles tiram a diferença e se sobressaem. A mesma coisa acontece com o pai dela, no Amapá, pois a maioria dos eleitores dele são aqueles que não passaram da 4ª série do Ensino Fundamental. Porque essa oligarquia consegue não apenas se reproduzir com essas teias de relacionamentos pessoais que é muito típico da cultura brasileira, mas também pelo controle da mídia, da magistratura, ou seja, tem várias esferas do poder, não apenas político", alertou.

O professor também arriscou apontar soluções para o fim do poder da oligarquia. "Na minha visão, nós temos três caminhos: primeiro é a ruptura da elite com esse sistema. O problema é que no Maranhão você não tem o surgimento de mais novas elites que venha da área agrária, industrial, bancária, empresarial. Até porque as antigas elites estão todas vinculadas historicamente ao grupo Sarney. Foi isso que aconteceu no Ceará. O segundo caminho é o que seria um movimento a médio e longo prazo de formação de uma nova consciência política, de educação, uma nova classe média surgindo nas principais cidades com movimentos sociais mais fortalecidos e os partidos de esquerda mais modernizados. A terceira via que indicaria o fim da oligarquia Sarney, para mim, seria a mudança qualitativa do nível de vida do maranhense. Se se conseguir mudar os índices de analfabetismo, a questão agrária, perspectiva de emprego nas principais cidades do Estado. Só existe nível de consciência política se você concentra as pessoas num mesmo lugar. Na concentração urbana as informações circulam. Se este nível de consciência política se concentra e há uma classe média mais emergente, é claro que os que estão em cima serão afetados por isso. Acho que esta seria uma terceira possibilidade".

Ele também acredita que Sarney é hoje um oligarca que não conseguiu deixar sucessores no Maranhão, o poder está concentrado nele. "Ele é hoje eminência parda no governo Lula, porque ele tem controle de parte do PMDB na Câmara e no Senado. Mas como historiador diria que toda oligarquia, todo poder constituído é temporal e um dia vai acabar. O fim já está dado. Historicamente nenhum poder é eterno. Acho que a teologia ajuda a entender isso. O fim não é aqui, agora, ele já começou. A gente só vive o processo", resumiu.

Estudioso do assunto

O também professor e doutor em História, Wagner Cabral, lançou recentemente o livro 'Sob o signo da Morte: o poder oligárquico de Victorino a Sarney" , fruto de sua dissertação de doutorado.

O professor trabalha assessorando movimentos sociais e dando curso de formação política desde a década de 90. "Então, trazia uma demanda por parte das pessoas em relação à história política aqui do Maranhão, como fazer o enfrentamento e a própria crítica do sistema de poder existente. Isto me levou a desenvolver pesquisa em torno da estrutura da oligarquia Sarney. No caso da dissertação eu fui investigar a própria ascensão do Sarney nos anos 60. O movimento político a partir do qual ele se tornou governador do Estado em 1965, a relação dele com a Ditadura Militar em que ele vai se transformar exatamente no representante civil do regime militar. E como ele também vai ser herdeiro de todas as oposições coligadas e de todo o enfrentamento político com Vitorino Freire. Então a investigação começa em torno dessa temática", explicou.

Ele também tem outros artigos publicados que tratam destes últimos quarenta anos de domínio do grupo Sarney no Maranhão. Questionado sobre a longevidade da oligarquia no Maranhão, o professor tem uma resposta pronta. "Dois elementos são importantes. Primeiro, Sarney sempre seguiu à risca o fato de estar sempre ligado ao governo federal. Neste sentido, desde o começo dos anos 60 ele vai procurando se ligar ao governo federal como uma forma de obter acesso aos cargos federais no Maranhão, como forma de se transformar no mediador em relação às verbas, a destinação de obras públicas aqui no Estado. De forma que ele sempre construiu a imagem dele a partir dos investimentos federais no Maranhão desde a época em que foi governador; Segundo, ele passou meio que incólume por todas as transformações políticas desde a redemocratização. Ele abandona o barco da ditadura militar quando está naufragando, vai fazer a aliança democrática com o Tancredo Neves e participar da fundação do PFL em 1985 que acabou por circunstâncias do destino se transformando em presidente e desde então tem ficado na base de apoio dos diferentes governos. Do Fernando Henrique ao Lula. A outra ponta é fato de que internamente ele sempre soube utilizar e utilizar bem, sob o ponto de vista político-eleitoral, a máquina pública para sustentação do próprio grupo político, no sentido de que a estrutura de poder oligárquica é uma estrutura que é baseada na utilização da máquina pública. Na apropriação privada dos recursos públicos para conseguir aliados. Mais recentemente tem tido uma certa importância principalmente em torno da figura da Roseana Sarney, pois houve um grande investimento de mídia em torno do nome dela, que passou desde o início da carreira pela época em que ainda era candidata a deputada federal na construção do nome dela como sucessora e herdeira política do pai. Depois o investimento em marketing político que foi feito ao longo de sete anos e meio do governo dela no Estado do Maranhão que tende a transformá-la de uma figura completamente desconhecida, do ponto de vista político, à musa. Ela era somente a filha do Sarney, nem morava no Maranhão. Ela passou a maior parte da vida morando em Brasília, fora do Estado e ele vai transformar esta figura desconhecida numa espécie de liderança e herdeira do grupo".

Mas como tudo que começa e um dia acaba, o professor também acredita que Roseana não é uma imagem completamente isenta de críticas. "Acho que a votação que ela teve neste primeiro turno, principalmente nas maiores cidades, é bem indicativa de que o mito em torno de Roseana Sarney, pelo menos em boa parte das cidades maiores, que concentra uma grande fatia deste eleitorado com perspectiva mais crítica, foi completamente demolido. Roseana não tem nenhuma blindagem em torno dela e o primeiro turno mostrou isso bem. Ela perde nas maiores cidades. Perdeu em São Luís. Perdeu em Imperatriz. Onde ela ganhou? Onde tem maior evidência foi exatamente nos grotões, nos municípios mais pobres, em que esta política do espetáculo, da distribuição de verbas, enfim, deste investimento que foi feito em torno do nome dela ainda tem repercussão para esta população pobre do interior do Estado. Mas as grandes cidades isto já está desaparecendo com toda certeza", reconheceu.

Em sua obra "Sob o signo da Morte: o poder oligárquico de Victorino a Sarney", o professor também observou as diferenças entre ambas as oligarquias. "O Vitorino foi alçado à condição de chefe político no Maranhão numa conjuntura muito específica. No final da 2ª Guerra Mundial ele veio representando o PSD, que era o principal partido da época, para organizar o partido no estado e organizar a campanha a presidente do general Dutra. A partir de então, como ele foi vitorioso nas eleições, ele se elege deputado federal e depois senador pelo Maranhão e vai controlar a política maranhense principalmente a partir do Rio de Janeiro (...). E o Vitorino nem maranhense era, ele era pernambucano. E vai ser visto como uma espécie de invasor que vem de fora e passa a mandar e desmandar no Estado. Tinha um controle muito rígido do TRE e se impõe com base na fraude eleitoral. A campanha das oposições coligadas é uma campanha muito em torno dessa coisa da própria idéia de libertação do Maranhão, dada por Vitorino Freire. Ele é um cara que veio de fora, então é preciso libertar o Maranhão também nesse sentido. Na dissertação, eu vou trabalhar com a greve de 51, que é exatamente o que colocou essa grande imagem que ainda existe em torno de São Luís ser uma ilha rebelde, oposicionista, vou acompanhar a ação política dos grevistas e toda greve de 51 é contra a fraude eleitoral, ela vai acontecer depois das eleições, quando o candidato do Vitorino Freire ganha com base nas fraudes e a população vai às ruas para combater a fraude eleitoral e defender a libertação do Maranhão contra essa oligarquia. Havia todo um discurso anti-oligárquico que marcou a política da época. O Sarney surge vinculado ao Vitorino - nas primeiras eleições ele saiu de dentro da oligarquia dele - o pai dele era juiz, foi desembargador no TRE, estava dentro desse esquema de poder, depois ele rompe e se alia às oposições coligadas e se torna um governador para supostamente acabar com a oligarquia desse coronel. Ele tinha esse discurso que em sendo eleito, ele ia acabar com a oligarquia no Maranhão. Mas o que acontece: ele acaba se transformando no novo oligarca, sucessor de Vitorino, impondo um sistema de poder mais rígido, mais amplo", contou.

A outra diferença entre o coronel Vitorino e o coronel Sarney, para o professor Wagner Cabral, se dá pela longevidade: Vitorino ficou em torno de 19, 20 anos. Sarney está há 41 anos. "Segundo, no caso de Sarney, o coronelismo adquiriu características familiares e Vitorino nunca - com exceção do sobrinho que rapidamente se candidatou a deputado federal -Vitorino nunca trouxe a família para sucedê-lo como chefe político. Sarney, ao contrário, primeiro tenta fazer o filho e não consegue e faz então a filha como sucessora, de maneira que a família se locupletou no sistema de poder e detêm um poder muito mais amplo. Vitorino também não tinha nenhuma fortuna pessoal, ele morre sem nada, com bens compatíveis com as suas funções, não tinha propriedade no Maranhão e nem no Rio, onde vivia efetivamente. A família Sarney tem um patrimônio imenso, organizado primeiro de forma legal, em torno do Sistema Mirante de Comunicação, com monopólio de rádio e TV na capital e no interior, fora outros bens que constituiu ao longo desse tempo. Vitorino não ostentava riqueza como Sarney ostenta", disse.

Ele também acredita que a oligarquia está em declínio, mesmo tendo conseguido eleger Cafeteira para o Senado. "Mas nas eleições para deputados estaduais e federais eles tiveram uma grande derrota. Se olhar as últimas eleições, eles tinham nove deputados federais, só elegeram sete agora. Em 2002, o grupo elegeu 24 deputados estaduais, agora só elegeu 14, foi uma perda grande. A votação dos candidatos ligados a eles foi inferior, tanto para o governo, Senado, Assembléia e Câmara, à votação dos partidos que lançaram candidatos se colocando em oposição. Nesse primeiro turno, uma parcela significativa da oposição já se manifestou contrária à candidatura, ao domínio da família Sarney, e no segundo turno, é preciso ampliar essa manifestação para poder dar vitória à oposição. Mas é uma campanha difícil. As maiores cidades deram vitória para a oposição. A de Roseana ganhou nos grotões onde o clientelismo é grande. São esses pequenos municípios que vão fazer mais uma vez a diferença. A candidatura de Roseana teve só 35% dos votos nos maiores colégios. Nesse segundo turno, a candidatura de oposição deve ampliar sua presença nos pequenos municípios, e ampliar ainda mais nos grandes centros. Porque ainda se corre o risco de ter um governo eleito pelo voto do ignorante, do miserável que ainda se ilude com marketing", reconheceu.

Mesmo em meio à tanta dificuldade, o professor Wagner Cabral acredita que o Maranhão vai se libertar dessa opressão. "O sistema político brasileiro nesses 21 anos de redemocratização tem conseguido, pela própria dinâmica de funcionamento, permitir que esses grupos políticos tradicionais, oligárquicos que surgiram na época da ditadura militar, fossem derrotados, às vezes no âmbito municipal, estadual. Mas eu acho que a democracia brasileira tem caminhado, mesmo marcada por esses problemas, como o voto dos grotões, da miséria, do clientelismo, para que essas eleições se tornem competitivas e essas forma de fazer política vem a desaparecer. Hoje a gente está vivendo um momento importante na Bahia, porque lá como aqui houve um falseamento das pesquisas, dando vitória ao grupo do ACM. Aqui as pesquisas do Ibope no primeiro turno chegaram a dar 71% para Roseana. E depois a própria pesquisa indicou queda de 20 pontos. O que ela pode designar - a pesquisa - é a derrocada da Roseana. De 71% ela teve pouco mais de 48%. Essa dinâmica política da democracia está fazendo aos poucos - menos do que se espera - a população vai se vendo livre dos coronéis. É preciso participar e acabar com o domínio do Sarney há 40 anos. A população acredita que essa é a hora de mudar. É possível mudar, se caminhar para outras formas, outras relações políticas. É possível eleger novos governantes que mudem esse estado de miséria das últimas décadas".

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