O Brasil é um dos países com maior incidência de asma entre os jovensCONSTANÇA TATSCH
O Brasil é um dos países em todo o mundo onde mais crianças e adolescentes têm asma. Ao lado dos EUA, Reino Unido e Austrália, o país aparece com taxa de prevalência com cerca de 20%, segundo novos dados do Isaac, estudo mundial sobre doenças alérgicas nas crianças.
Os especialistas não conseguem apontar uma explicação para isso, embora o ácaro, um dos principais causadores de alergias, seja comum em lugares quentes e úmidos. A herança genética também seria uma das causas.
De acordo com Dirceu Solé, pediatra da Unifesp e coordenador nacional do estudo, os dados mostram maior prevalência da asma na região Nordeste. Ele diz ainda que a tendência da asma, após anos de aumento, é de estabilidade.
Os dados coletados para o Issac em duas regiões de São Paulo chamam a atenção. Entre crianças de seis e sete anos, 31,2% tinham prevalência de asma na zona oeste, contra 24,4% na zona sul. Entre adolescentes de 13 e 14 anos, 21,9% na zona oeste, contra 18,7% na sul.
A poluição é apontada pelos médicos como provável responsável por essas diferenças. “A região oeste é cortada por duas rodovias, a Régis Bittencourt e a Raposo Tavares, e ainda tem a marginal. O fluxo de automóveis e caminhões é grande, é uma das regiões mais poluídas. A hipótese é que o resultado esteja relacionado aos altos índices de poluição”, diz Antonio Carlos Pastorino, pediatra do Hospital Sírio-Libanês que pesquisou mais de 6.000 jovens.
A asma, quarta causa de internação pelo SUS, é uma inflamação crônica das vias aéreas. O asmático tem uma resposta exagerada a certos estímulos. Ao entrar em contato com um deles, começa a ter uma crise. A musculatura de brônquios e bronquíolos se contrai, aumenta a espessura da mucosa e a produção de muco.
Com o estreitamento, a passagem do ar fica mais difícil. O paciente tosse, e quando o ar passa pelos pulmões, produz um chiado. Em casos graves, o asmático precisa ser hospitalizado. Como a doença é reversível, depois que uma crise é controlada, a pessoa fica bem.
Um dos principais fatores desencadeadores é a alergia. Pólen, poeira, ácaros, restos de barata e pêlos de animais são causas comuns. A fumaça de cigarro, a poluição, as mudanças de temperatura e clima, e os exercícios também podem atacar o sistema respiratório já sensível, além de aspectos emocionais como nervosismo, irritação, ansiedade e estresse.
O controle ambiental, ou seja, o cuidado com esses estímulos, associado à medicação costuma ser suficiente para que os asmáticos tenham vida normal, podendo até mesmo ser atletas. A medicação é dividida em remédios de controle e de alívio, para crises, sendo feita por via inalatória (bombinha ou pó).
“Esse controle ambiental vale para todos. Não fumar, não ter bicho de pelúcia, evitar que animais entrem nos quartos, evita que se desenvolva asma”, afirma Ciro Kirchenchtejn, pneumologista da Unifesp.
A asma é mais grave em crianças em razão do calibre da via aérea. Outro momento comum para o surgimento da asma é entre os 40 e 50 anos.
Os pesquisadores acreditam que a asma pode ser mais freqüente do que se imagina. Antonio Carlos Pastorino, pediatra do Hospital Sírio-Libanês, afirma que “boa parte” dos jovens estudados não sabia que tinha a doença.
Entre os adolescentes de 13 e 14 anos da região oeste de São Paulo, por exemplo, 22% responderam positivamente para os sintomas de asma, mas apenas 9% já tinham recebido esse diagnóstico. “Há discrepância entre sintomas e diagnóstico. Muitos não têm acesso à saúde e há um estigma, muitos pacientes são subdiagnosticados”, afirma Pastorino.
Segundo Ciro Kirchenchtejn, pneumologista da Unifesp, muitas pessoas preferem dizer que têm bronquite, uma inflamação dos brônquios causada geralmente por uma infecção, em vez de afirmar que têm asma, o que pode atrapalhar o diagnóstico e o tratamento.
“Há uma resistência cultural. A asma parece mais grave, não tem cura, pode matar e tem um componente genético, o que pode gerar culpa”, afirma Kirchenchtejn.
Apesar da doença ser comum, e controlável, ela pode matar. Cerca de 3.000 pessoas morrem por ano no Brasil em decorrência da asma. Entre os 22% citados anteriormente com os sintomas, 5,6% tinham asma grave.
Perguntas e respostas
1. Quais as causas da asma?
A causa da asma ainda não é clara. O fator genético é importante, mas influi também o sistema imunológico e infecções virais. Quando pai e mãe têm alergia, a chance de ter um filho alérgico é de 80%.
2. Como evitar as crises asmáticas?
Além da medicação de controle, é importante manter o ambiente limpo, ensolarado e ventilado, evitar contato com ácaros, retirar objetos que acumulem poeira, evitar odores fortes, evitar a presença de animais e nunca fumar ao lado de um asmático. Deixar os centros urbanos poluídos, sempre que possível, ajuda o paciente.
3. Como é a medicação?
O principal remédio para controle é o corticóide, por via inalatória, que costuma ter poucos efeitos colaterais e é eficiente. Para os momentos de crise são usados os broncodilatadores.
4. O que é o Isaac?
O Isaac (International Study of Asthma and Allergies in Childhood) é um estudo realizado em todo o mundo com a mesma metodologia, com base em questionários. A primeira fase foi em 1996, a segunda em 1998 e a terceira em 2002. O Brasil participou de todos os estudos. Na terceira fase, foram avaliados 18 centros no país.
Depoimento
Com a medicação, ele leva uma vida normal
A primeira crise que o Luís teve foi aos 15 dias. A pediatra viu que ele tinha uma inflamação nos brônquios. Depois dessa crise, ele teve outras, sempre controladas com inalação associada à medicação. Ele tinha um ano e pouquinho, dois anos, quando ficou caracterizada a asma.
Quando ele tinha cinco anos, ficou internado na UTI. Pelo quadro, definiram que ele era um asmático de médio a forte, tem uma graduação pelos tipos de sintoma. Ele é alérgico a muitas coisas, é magrinho, cansa para respirar, já ficou na UTI e não consegue ficar sem a medicação de controle. Ele não consegue conviver com a doença sem a medicação, mas, com ela, leva uma vida bem normal, pratica esporte, é saudável.
Ele tem alergia a pó, ácaro, cheiros de produtos de limpeza, pêlo em geral. Nas crises ele tem coceira no nariz, funga e começa a respirar ofegante, chiando, como se tivesse um gatinho no pulmão.
Nós moramos em São Paulo, uma cidade poluída, e quando viaja para outro lugar, praia ou interior, ele fica muito melhor. O médico recomenda que sempre que possível saia de São Paulo. Quando vamos para ficar mais tempo, consigo diminuir a medicação para menos da metade.
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