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EditorialDirceu na berlinda

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7 de janeiro de 2006
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Em matéria assinada por Miguel Reali Junior, correspondente na França de O Estado de São Paulo e da Rádio Jovem Pan, José Dirceu declara que “o PT é uma página virada em minha vida”, tece criticas a Tarso Genro e a Raul Pont, respectivamente ex-presidente nacional e secretário geral do PT, e fala em tom de bravata ao dizer: os que me conhecem sabem que não tenho meio-termo e quando entro é pra valer, para brigar, lutar, impor-me”.

Em nenhum momento, no entanto, Dirceu menciona que vai se desfiliar do PT, partido do qual é um dos fundadores, embora hoje considere “melhor ficar de fora”. Empavonado, José Dirceu prossegue garantindo que conta com o apoio da maioria dos filiados do PT, e “Tarso Genro não tem sequer 3%”. Genro sucedeu José Genoíno na presidência nacional do partido e bloqueou as investidas de José Dirceu que teimava em querer participar da chapa do Campo Majoritário que disputou a última prévia nacional. O Campo Majoritário é uma corrente que dominou o PT nestes últimos 10 anos e era comandada por Dirceu.

Em todas as entrevistas que José Dirceu concedeu depois que foi obrigado a sair da chefia do Gabinete Civil em conseqüência do escândalo do mensalão, ele procurou se projetar como um líder revolucionário que lutou contra a ditadura militar (64 a 85). Pura bazófia. Em 1968, José Dirceu foi preso como líder estudantil no 30° Congresso da União Nacional dos Estudantes, da qual era o presidente. Simpatizante do grupo de Carlos Marighella, um líder de um segmento de esquerda que pegou em armas contra os militares. Marighella morreu numa emboscada armada pelo delegado Fleury, em São Paulo. José Dirceu teve oportunidade de participar da luta armada, porém optou por andar em locais mais pacíficos, onde o combate se travava na esfera verbal.

Preso, ele foi libertado em troca do embaixador norte-americano, seqüestrado por um grupo guerrilheiro onde se destacava o jovem Fernando Gabeira, jornalista de primeira linha, com pouco mais de 20 anos de idade. Gabeira entrou em confronto com as forças da repressão, sendo baleado, preso e trocado pelo embaixador da Alemanha, seqüestrado por seus companheiros. Tanto José Dirceu quanto Gabeira se exilaram no exterior.

José Dirceu foi para Cuba, retornou ao Brasil com o rosto modificado por operação plástica e optou por viver no anonimato, no oeste do Paraná, onde se casou com outra identidade. Levando uma vida mansa, mais pacífica do que a de um monge, Dirceu só voltou ao cenário político com a Anistia, em 1979. Em 80, sem luta armada no país, Dirceu, vendendo a áurea de guerrilheiro, participou da fundação do PT junto com Lula. Esperto, formou um grupo que esvoaçava em torno de Lula, um líder operário que se firmara nos grandes embates do ABC Paulista dos anos 70.

Elegeu-se deputado estadual e teve como seu assessor Rogério Buratti, acusado, atualmente, de fazer trapalhadas na sombra do ministro da Fazenda, Antônio Palocci. Em 92, assinou o requerimento da abertura da CPMI de PC Faria que forneceu munição para o impeachment contra o presidente Fernando Collor. Logo depois participou da CPI do Orçamento dos Anões que cassou parlamentares e obrigou deputados a renunciarem o mandato. Naquela época, José Dirceu era assessorado por Waldomiro Diniz, o mesmo que deflagrou a primeira crise do governo Lula, em 2004, ao ser flagrado pedindo propina a um empresário de jogos eletrônicos. Dirigentes da Gtech revelaram à Polícia Federal, ao Ministério Público e à CPI dos Bingos que Buratti tentara extorquir R$ 6 milhões da empresa. Nessa empreitada desonesta, Buratti estava entrosado com Waldomiro Diniz.

Em janeiro de 2002, o prefeito de Santo André, Celso Daniel, foi seqüestrado, torturado e assassinado. Dois irmãos da vítima – João Francisco e Bruno – relataram na CPI dos Bingos, Polícia Civil e no Ministério Público que o secretário particular do presidente Lula, Gilberto Carvalho, informara a eles que existia na prefeitura de Santo André um esquema de coleta ilícita de doações que tinha como principal operador Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, que destinava o dinheiro para José Dirceu, na época presidente nacional do PT e coordenador da campanha de Lula.

Com o escândalo do mensalão, ficou comprovado o envolvimento de Delúbio Soares, Silvio Pereira e Marcelo Sereno, pessoas da confiança de José Dirceu, guindadas por ele a tesoureiro, secretário-geral e secretário de comunicação do PT, respectivamente.

Hoje desencantado com o grupo de José Dirceu, Fernando Gabeira, ex-petista, diz em tom de frustração que “fomos condenados a uma farsa”, e Gabeira aprofunda ao afirmar que José Dirceu não é apenas o mentor do mensalão, é o mentor do assalto à máquina do Estado, junto com um grupo de poucos que trabalhavam com ele, como Waldomiro Diniz, Delúbio e Marcelo Sereno.

Auditores da Receita Federal que examinam o PT detectaram fraudes contábeis na escrituração de 2002 a 2005, período em que o grupo de José Dirceu mandava no partido. Essa situação caótica poderá levar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a abrir processo para cassar o registro eleitoral da legenda, bloqueando o fundo partidário para o PT. O TSE também analisa a prestação de contas do PT, e as informações que vazaram revelam “indícios de práticas heterodoxas, entre elas um volume incomum de saques em dinheiro nas contas do partido”.

Lula mudou o seu discurso. Em vez de desmentir a existência do mensalão e a inocência de José Dirceu, ele se firma na versão de que foi vítima de traidores, assim como o PT, seu partido. Não resta dúvida de que a traição partiu do grupo de José Dirceu, reforçado por Marcus Valério, um trambiqueiro de alto coturno.

É amargo constatar que o Brasil ficou à deriva por 30 meses, tempo que José Dirceu se comportou no Palácio do Planalto como o senhor de braço e cutelo no governo Lula.

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