O governador José Reinaldo viajou a Brasília para entrar em contato com o presidente do Senado, Renan Calheiros, objetivando colocar em pauta para votação ainda este mês o projeto de resolução que se refere ao empréstimo do Banco Mundial ao governo do Estado do Maranhão, no valor de US$ 30 milhões para financiar o Programa de Desenvolvimento Integrado do Maranhão (Prodim), que prevê a implantação de 1.200 projetos de agricultura familiar nos 80 municípios mais pobres do Maranhão, beneficiando 500 mil pessoas. O projeto, que tem ainda contrapartida de 10 milhões de dólares do governo do Estado, recebeu parecer favorável da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado e inexplicavelmente, o então presidente da Casa, senador José Sarney, não o botou em votação no dia 15 de dezembro de 2004, quando se encerrou a sessão legislativa. Ainda em dezembro, na condição de presidente da Casa, Sarney convocou extraordinariamente os senadores para votar o Orçamento anual e outras matérias. A pauta foi organizada por ele, que deixou de incluir o Prodim.
Recentemente, o governador José Reinaldo e 30 deputados estaduais estiveram em Brasília e expuseram a Renan Calheiros a importância da aprovação do projeto de Resolução do Prodim ainda no mês de março, pois em abril a programação do Banco Mundial para conceder empréstimos às regiões pobres do planeta se encerra para este ano, ficando o Prodim fadado a fracassar por anemia financeira.
Neste esforço de José Reinaldo, nenhum senador maranhense o ajudou. Distanciaram-se e deixaram de socorrer milhares de famílias dos municípios que apresentam os piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs) do Estado. E os IDHs do Maranhão são os piores do país.
Cortados por mais de dezenas de rios perenes, o Maranhão já foi o segundo produtor de arroz do país e a qualidade de seu algodão se rivalizava com os melhores do mundo. Fome não existia nas terras que ficavam entre o rio Parnaíba e o Tocantins. Porém, a concentração de terras em poder de poucos tirou a oportunidade de trabalhos dos pequenos posseiros lavradores. O Maranhão se empobreceu e, em vez de exportar produtos agrícolas, passou a exportar mão de obra carente, sujeita a regime de escravidão nas grandes propriedades de outros Estados.
No seu último artigo publicado em O Estado do Maranhão, o senador Sarney enfatiza, em tom de auto-defesa: “O único Estado brasileiro em que quase a metade da população vive no campo é no Maranhão, e por isso mesmo ele paga nas estatísticas os índices baixos, que nada mais são do que não entrar no cômputo econômico essa gente que vive em regime de subsistência, sem a sedução do consumismo das metrópoles. O resultado é um maior nível de igualdade. Isto faz com que o Maranhão tenha a melhor distribuição de renda do Nordeste”. Parece que o senador Sarney delira quando faz essa colocação. Ex-governador, porta voz da ditadura militar, ex-presidente da República, ex-presidente do Senado e membro da Academia Brasileira de Letras, uma pessoa com este currículo se supõe que esteja intelectualmente preparada para ler a realidade e saber que uma população espremida na zona rural, atolada no sistema de escambo, trocando os escassos produtos de suas rudimentares roças não pode ser feliz, porque felicidade não combina com miséria. Ou será que Sarney boicotou a aprovação do empréstimo para o Prodim porque acredita que a população rural dos 80 municípios mais pobres do Maranhão vive feliz?
Certamente, o motivo foi outro e com razão política. Sua filha Roseana governou por quase oito anos e entregou o Maranhão ao seu sucessor com os piores IDHs do país e o Estado desestruturado administrativamente, sem um órgão responsável pela política agropastoril, sua principal vocação econômica.
O triste dessa historia não é o retrocesso que o Maranhão conheceu nas duas gestões de Roseana, mas a constatação de que Sarney dá mais importância à hegemonia do seu grupo no Estado do que aos pobres de sua terra. Em Brasília, um senador que entrou com uma das emendas ao projeto de Resolução do Prodim já revelou ao deputado Sebastião Madeira (PSDB-MA), que assim procedeu a pedido de um político do Maranhão. As emendas retiram da pauta de votação o projeto e ameaçam inviabilizar o Prodim.
Enquanto a bancada maranhense no Senado cruza os braços aos caprichos de Sarney, nos outros Estados os políticos agem diferentemente quando se trata de socorrer a população. A estiagem em vários Estados do Sul e do Nordeste proporciona um quadro em que adversários se unem para defender os segmentos flagelados. No Rio Grande do Sul e Santa Catarina, os políticos se aliaram e esqueceram suas diferenças. No Nordeste, ocorre o mesmo e em Alagoas, onde as campanhas eleitorais enlutam quase todos os seus municípios, a sua bancada no Senado adotou o mesmo discurso pedindo recursos federais. Os senadores Renan Calheiros (PMDB), Teotônio Vilela Filho (PSDB) e Heloísa Helena (P-Sol) percorrerão juntos, no próximo sábado, os quatro dos 28 municípios mais castigados pela falta de chuva. Os deputados federais de Alagoas seguiram o exemplo dos senadores.
A estiagem é cíclica e um fenômeno da natureza, já a miséria do Maranhão é mais fácil de resolver apesar de ser endêmica e cruel, porque sua raiz se encontra na política. O governo José Reinaldo elaborou o Prodim para ajudar a retirar da fome 500 mil pessoas. No entanto, parte dos deputados federais do Maranhão e os senadores optaram por Sarney, em vez de ficar ao lado dos trabalhadores rurais mais carentes do Estado. José Reinaldo encontra apoio em Brasília de lideranças do PTB, PSB, PSDB e PP para o Maranhão não perder o financiamento do Banco Mundial. É lamentável que famílias indefesas tenham como algoz quem deveria defendê-las.