“Água que o sol evapora, pro céu vai embora, virar nuvem de algodão.”
(Planeta água – Guilherme Arantes)
Cada dia fala-se mais no tema. Agências internacionais, ongs, alertam, umas com mais espalhafato outras mais circunspectas: num futuro não muito distante faltará água para beber e para as atividades mais comezinhas. Fala-se que dois bilhões de pessoas já vivem numa escassez permanente. Guerras por petróleo, como a história registra a primeira guerra do Golfo e, porque não, a invasão do Iraque pelos americanos, será apenas isto, passado. As guerras serão por causa de água. E sem petróleo até dá para passar, mas sem água...
De fato, basta olhar ao redor, não há elemento mais importante. A vida começou na água, seja na perspectiva criacionista ou evolucionista. A própria terra, em dado período, era apenas água. O Espírito pairava sobre as águas, diz o Gênesis. A terra seca vem depois à ordem de Deus e ação do Espírito, segundo registra o livro sagrado. E, mesmo que o relato da criação diga que fomos feitos do barro e que ao pó tornaremos, mais de dois terços desta mistura de gente é água. O que sugere que o material de que se é feito talvez não importe, quem dá vida ou a permite é a água. Não será daí que sai a expressão de Jesus: “...quem não nascer da água do Espírito não pode entrar no reino de Deus.” (Jo 3.5)? Claro, usa-a num contexto espiritual, porém com repercussões evidentes e palpáveis na vida cotidiana e na eternidade, pelo menos era sua intenção com aquele velho homem que indagava sobre nascer de novo. E olha a relação do Espírito e água juntos novamente na idéia de gerar vida.
À parte da crescente preocupação humana com o problema da futura e já presente escassez de água, o que faz parte de um contexto maior de preocupação com a natureza toda e seus recursos as soluções passam sempre pela boa vontade de todos e vis interesse de uns poucos. Taí o protocolo de Kioto assinado e ameaçado, porque se não bastasse todas as agressões que se faz envenenando rios, lagos e emporcalhando o mar, resolvemos desequilibrar o clima também. E o protocolo não passa de medo da sobrevivência ameaçada. Séculos de uso despreocupado e relaxado acenam para cobranças assombrosas em forma de cataclismas de toda sorte. Não haverá menores desastres pessoais para a rejeição ao novo nascimento daquela água oferecida por Jesus.
Os que crêem na Bíblia perderam ou nunca perceberam, talvez excessivamente preocupados com a alma, que o mandato bíblico inclui sim uma relação ecológica equilibrada com o mundo, afinal, a idéia de domínio nunca foi a liberdade para destruir ao bel prazer das exigências econômicas ou do puro descaso, da incompetência dos dirigentes das organizações nas aglomerações urbanas. O mandato dado ao homem previa uma relação de mordomia, permitindo que os mecanismos naturais fizessem sua parte. Mas exceto para batizar e os asseios que se faz sem se dar conta, não se liga muito para isso, estes problemas mundanos ridículos não são nossa responsabilidade e mesmo se espera novos céus e nova terra... É, mas do jeito que a coisa vai não se poderá cumprir a ordem de Marcos 16 nem com aspersão com três dedos e, como algumas linhas defendem, não haverá novo mundo sem o cumprimento daquela missão.
Espero não estar falando muita água, mas me ocorrem tantos pensamentos e um deles me faz relembrar o brado do Senhor, o caminhador sobre as águas, dizendo: “quem tem sede venha a mim e beba.” Muita gente vive uma aridez louca e nem água na boca tem, símbolo de uma vida de prazeres inúteis, descartáveis, dessedenta-se com água que não mata a sede como bem afirmou o Mestre à mulher samaritana. É apenas água que nos faz voltar às mesmas fontes rotas. E aquela água da qual nos fala o Senhor produz uma fonte dentro de cada um, fonte que, diz Ele, salta para a vida eterna. Pensando nisso me vi perguntando, esta fonte, como todas as demais, deve receber água de algum lugar, de onde seria? E então me veio uma possível explicação no Salmo 46.4: “Há um rio cujas correntes alegram a cidade de Deus, o lugar santo das moradas do Altíssimo.”
Deduzo, portanto, que esta pequena fonte interior tem uma conexão com este rio que Apocalipse (cap 22) afirma ser claro como cristal, à prova de poluição. Rio que alimenta uma certa árvore da vida plantada às suas margens, e que imagino ser a mesma daquele paraíso inicial que foi arrancada para um propósito mais nobre, alimentar e curar as nações. Mas não é interessante que qualquer um que creia pode também ser árvore plantada junto a ribeiro de águas, cuja folhagem nunca murcha e que dá o seu fruto na estação própria? (Salmo 1)
Neste contexto o que não se pode ter é a mente da mulher samaritana, excessivamente castigada pelos limites e horizontes de uma vida numa terra com pouca água e que na sua vida representa amores voláteis, vivência à margem dos outros e de Deus porque tudo que entendia dEle era o que os outros disseram que era, nada de contato, nenhuma experiência pessoal. Assim circunscrito, diante de idéias que fogem ao comum e conhecido, somos levados a raciocinar com os signos materiais: És maior que nosso pai Jacó que cavou o poço? Como tirar água do poço se não tens nada com que tirar? (João 4). Não se diz “cadê o balde” para Deus.
E a coisa toda, de água e sede, temores de escândalos, terrores implantados pelas distâncias cozidas pelo preconceito racial, descamba mesmo é para a adoração a Deus. Inusitado. Desculpa do Senhor para falar àquela mulher da mensagem que importava, salvação? Não creio. Adoração tem tudo a ver. Não há salvos onde ela não acontece. Não há alegria onde ela é esquecida. Não há relação com aquEle que se assenta no trono debaixo do qual o rio nasce se não bebemos aquela água viva para que nosso olhos se abram, nosso ser o perceba e nos sintamos um seu igual.