‘’Olhai para as aves do céu’’, disse Jesus. Também, a seu exemplo, peço-lhe que olhe para elas. Todavia, sugiro que você dê uma especial atenção a uma ave do nosso céu, o urubu. Quanto a mim, não atentei para sua estética nem para a gratuidade do seu alimento, como fez nosso Senhor Jesus. O que vi foi um paradoxo, uma realidade inalterável, uma ambivalência imutável, que muito se assemelha a condição espiritual do homem natural.
Por um lado, é a única ave (em nossa realidade) que divide os céus com as nuvens. Num dia de céu-perfeito, são as únicas que observamos a mergulhar nos limites da atmosfera. E como se desejassem causar inveja ás outras espécies de aves, voam majestosamente sem um movimento sequer de suas asas, como se carregadas pelo vento. Creio que se tivessem consciência de sua condição, seriam as aves mais orgulhosas (no sentido comum do termo), visto terem o monopólio dos altos céus.
Por outro lado, bastam suas necessidades vitais manifestarem-se e logo vemos uma realidade. O mesmo urubu que alcança, sem resistência, a ponta do céu, é o que se vê obrigado, por suas necessidades, a descer no seu ponto mais baixo. Como se não bastasse apenas o incondicional dever de descer quilômetros para terem suas necessidades supridas, vê-se na única alternativa, haja vista sua natureza, de comer o que chamamos de carniça.
Agora olhemos também para a realidade da existência humana. De certo modo, o homem muito se assemelha a essa ave.
Por um lado, ele foi feito “à imagem e semelhança de Deus” (Gn 1.26). Isso implica uma capacidade que tem de dominar os demais componentes da natureza, ou seja, uma liberdade que lhe permite voar mais alto que os outros seres vivos. Ao olhar para o homem, admite-se que ele pode superar todos os demais animais. É o único que tem o monopólio da consciência, da intelectualidade, da criatividade, do domínio e da ética.
Entretanto, por outro lado, tão logo se evidenciam as necessidades de sua natureza, vê-se obrigado a descer o seu nível mais baixo. O homem que chega a altos patamares desce para alimentar-se de suas “carniças”. Isso é o que chamo de a queda do orgulho.
Por três vias o homem pode alcançar altas posições, em sua vida. Posições estas que o elevam às alturas.
A primeira via é pelo poder; a segunda, pelo conhecimento e a última, pela virtude.
Todas essas vias são formas pelas quais ele se eleva às alturas, achando-se o mais importante, entre tudo. O único que voa mais alto.
A petulância chegou a tanto que o fez pensar que podia tudo. Nero achou que podia tudo. Hitler, também. Nietzsche e Adler sugeriram que o “poder individual” era a única forma de auto-sobrevivência humana.
A evolução de seu conhecimento também o fez imaginar saber mais que o próprio Deus e proclamou: “Deus está morto!”.
E para voar mais alto, afirma possuir uma justiça própria. Justiça tal que o leva a considerar-se bom, por critérios pessoais, e os outros, maus.
No entanto, basta olhar o homem na figura do juiz assassino, do político corrupto, do pastor charlatão, do padre pedófilo ou do pai incestuoso. Basta olharmos e vemos o quanto o homem é limitado. Por mais alto que voe, seja por poderio, conhecimento ou moralismo, sempre terá de descer para alimentar-se do que lhe é próprio: sua natureza pecaminosa. O primeiro termo de cada um desses binômios indica status alcançado que dá orgulho e nobreza, e o segundo termo, o encontro com sua condição real, com suas fraquezas, com sua natureza.
O que torna o homem, nos aspectos aludidos, diferente do urubu, é que ele possui consciência de sua triste realidade. Daí o desespero e angústia existencial. Por mais que o homem venha voar bem alto, sempre terá de enfrentar sua imutável condição; sempre terá de experimentar suas limitações e alimentar-se daquilo que é sua única dieta: o pecado. Ninguém está isento disso. Não existe super-homem, humanismo ou ateísmo que altere tal realidade.
“Deus expulsou o homem e no lado leste do jardim pôs os querubins e uma espada de fogo que dava voltas em todas as direções. Deus fez isso para que ninguém chegasse perto da árvore da vida” (Gn 3.24 - VTLH). O homem é um ser livre, inteligente, mas esbarra-se em sua finitude e necessidade. Mesmo o homem dotado de poder, conhecimentos e valores éticos vê-se sucumbido pela morte. Ainda que a vida do homem tenha sido um voar nas alturas, chega-lhe o instante de alimentar-se da morte, de descer a seu destino.
Daí ser a graça de Deus a única via de alteração dessa realidade. Não há outra forma do ser humano interromper o paradoxo de subir e descer, levantar e cair, vencer e fracassar, conquistar e perder. Enquanto o homem estiver separado de Deus, sempre lhe será impossível livrar-se de sua natureza. Diz a Bíblia Sagrada: “os exaltados serão humilhados”. Por outro lado, quando o homem se rende a Deus, ela diz: “os humilhados serão exaltados”. Quando o homem reconhece sua condição de dependente de Deus e reconhece que sem Ele suas necessidades existenciais jamais serão supridas, a mesma fonte sagrada diz: “Deus levanta os pobres do pó e tira da miséria os necessitados. Ele faz com que os pobres sejam companheiros dos príncipes e os põe em lugares de honra” (I Samuel 2.8 - NTLH).
Portanto, não voe muito alto. Não esqueça suas limitações. Não passe por cima de todos. Não esqueça que a morte vem para todos, e nada de viver como se fosse um super-homem. Você quer ser o maior? Então “seja o menor”, como disse Jesus.
Boa semana para você! Carlos Ximendes - carlosximendes@terra.com.br - Igreja do Evangelho Quadrangular