O presidente Lula decidiu ontem encerrar a reforma ministerial de seu governo que vinha se arrastando por mais de seis meses. A decisão foi tomada depois de uma reunião de Lula com os senadores Renan Calheiros e José Sarney. Analistas políticos responsabilizam o processo da reforma ministerial pelo desgaste da imagem do presidente que caiu de novembro do ano passado para março, segundo pesquisa do Ibope ontem divulgada pelas agências de notícias. Mesmo continuando a liderar a preferência do eleitorado, a pontuação de Lula despencou em relação a um provável confronto eleitoral com José Serra, Geraldo Alckmin ou Aécio Neves. Quem subiu, significativamente, na preferência do eleitorado foi o pré-candidato do PFL, o prefeito do Rio de Janeiro César Maia.
Ontem, Lula anunciou as únicas alterações que procedeu no seu primeiro escalão, nomeando Paulo Bernardo (PT-PR) para o ministério do Planejamento e o senador Romero Jucá (PMDB-RR) para o da Previdência. Quem dançou foi o senador Amir Lando (PMDB-RO), que há meses entrara num processo de “fritura” que só acabou no dia 15 de março quando, constrangido, pediu demissão do ministério da Previdência.
A reforma ministerial atingiria Ciro Gomes (afastado do PPS), Humberto Costa (PT), Aldo Rebelo (PC do B), Eunício de Oliveira (PMDB) e Olívio Dutra (PT) e beneficiaria Roseana Sarney (PFL), Ciro Nogueira (PP) e João Paulo Cunha(PT).
O caso de Ciro apresentava dois motivos: eficiência e interesse de Lula na montagem de sua candidatura à reeleição em 2006. Ciro se destacou na condução do ministério de Integração Nacional, considerado uma “bomba” depois dos escândalos da Sudam e Sudene, que resultaram em prejuízos aos cofres públicos em mais de R$ 4 bilhões.
Ciro Gomes colocou nos eixos o Ministério da Integração e conseguiu mobilizar o Nordeste para o projeto de transposição das águas do rio São Francisco para perenizar as bacias hidrográficas de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, constituídas de rios de fluxo intermitente para beneficiar 12 milhões de nordestinos. A chegada de Ciro Gomes, hoje, em qualquer cidade sertaneja do Nordeste, atrai milhares de admiradores, ressuscitando o fenômeno da fé e esperança que o povo tinha em padre Cícero e frei Damião. A transposição recebe duras críticas dos alagoanos, sergipanos, baianos e mineiros, porém Ciro abranda com suas exposições seguras e claras a ressabiados sertanejos, que depois de ouvi-lo ficam acreditando na vitalização do rio São Francisco. A popularidade de Ciro no Nordeste Setentrional é contagiante e Lula estava providenciando o seu ingresso no PMDB para possivelmente se candidatar a vice-presidente da República na sua chapa em 2006.
O desempenho de Humberto Costa vinha desagradando segmentos da população e em algumas regiões se perguntava: por que Lula o conserva no ministério da Saúde? Porém, nos focos de corrupção de sua pasta, Humberto Costa bateu forte; a intervenção nos hospitais do Rio o colocou na berlinda nacional e agradou o carioca e o povo brasileiro. Ciro Gomes estava escalado para substituí-lo. No entanto, no último sábado, na comemoração dos 25 anos de existência do PT em Recife, petistas de vários Estados se movimentaram por sua permanência e ele continua no ministério da Saúde.
A derrota de Luis Eduardo Greenhalgh (PT) para Severino Cavalcanti (PP) foi debitada injustamente a Aldo Rebelo, porque quem de fato coordenou a candidatura petista foi o então presidente da Câmara dos Deputados João Paulo Cunha que inexplicavelmente estava cotado para substituí-lo
Eunício de Oliveira arrumou as gavetas para deixar o ministério das Comunicações e estava certo de que assumiria o da Integração com o remanejamento de Ciro Gomes para a Saúde. Eunício vibrava, porque, como cearense, iria tocar a transposição e a vitalização do rio São Francisco que Ciro organizou com muita competência.
A anunciada degola de Olívio Dutra do ministério das Cidades desencadeou uma mobilização de movimentos sociais e lideranças municipais para salvá-lo. A austeridade no trato dos bens públicos lhe deu respeitabilidade no quadro nacional. Sacar Dutra para colocar quem? Roseana. Sim, Roseana esteve cotada para substituí-lo e o seu trunfo maior é ser filha de Sarney.
Aparentemente, a dúvida da nomeação de Ciro Nogueira para o ministério das Comunicações foi o motivo das ameaças de rompimento de Severino Cavalcanti, presidente da Câmara, dirigidas a Lula e ao PT. Assessores de Lula informaram que o presidente refletiu e chegou à conclusão de que a reforma só beneficiaria Roseana, pois a pesquisa do Ibope já apontava para um declínio de sua popularidade, por causa da indefinição da reforma. O próprio João Paulo não andava interessado no ministério de Articulação Política, porque quer mesmo é se candidatar a governador de São Paulo.
Na frente de Sarney, Lula bateu o martelo e encerrou a xaropada da reforma ministerial que fez Roseana sentir o gostinho de ser quase ministra das Comunicações, da Integração Nacional, das Cidades e da Articulação Política, mas deve continuar em Brasília como senadora à espera de seu ministério. Será que o sonho ainda não acabou?