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Espaço do Leitor - O fofão precisa brigar pelo seu carnaval

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Data de Publicação: 18 de março de 2005
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É notório que o Carnaval deste ano em nossa cidade foi bem pior do que nos anos anteriores. Por um lado por ter sido mais cedo, diminuindo assim os dias de pré-carnaval, mas principalmente pelos problemas que vem se agravando nestes últimos cinco carnavais. Assim levantaremos aqui algumas questões que estão prejudicando a nossa festa,afim de contribuir para uma discussão sobre o que precisa ser feito para melhora-la.

A centralização - A centralização da festa no circuito Deodoro/Madre Deus proporcionou uma superlotação asfixiante e perigosa, precisamos urgentemente criar opções com a mesma qualidade (Brincadeiras, shows, decoração, som de qualidade, iluminação, limpeza, segurança e divulgação) em pontos estratégicos da cidade, proporcionando ao público um carnaval mais próximo do seu bairro,da sua comunidade e com a qualidade que o cidadão merece. Esta ação em médio prazo dividirá o público em pontos diferentes da cidade desafogando o circuito central. A descentralização tem de acontecer no pré-carnaval e nos dias da festa. Um carnaval descentralizado nos traz vários benefícios, pois permite a democratização do acesso aos bens culturais; torna a festa mais segura,divulga ainda mais a nossa cultura tornando-a mais forte e desenvolve a auto-estima da população por sua cidade.

É só observar a nossa festa maior,os festejos juninos, para aprender. A cidade fica mais bonita e segura, quando a festa acontece em toda ilha.

praia grande - Sobre a Praia Grande gostaria de abrir uma reflexão. Em todas as cidades onde existem centros históricos como o nosso, a política desenvolvida é para que a população vivencie estes espaços, e criem por eles auto-estima, orgulho e respeito, o que proporcionará o desenvolvimento de uma consciência de preservação do patrimônio, mas isto só acontece quando esse patrimônio faz parte da vida dos cidadãos. Em relação a Praia Grande conseguimos isso, e há dois anos o público vai pra lá, lota o local que não oferece nenhuma estrutura - nem programação, nem higiene,nem iluminação adequada e nem segurança. Se a política do Estado é aproveitar o período para o desenvolvimento do turismo, não podemos nos esquecer que aquele conjunto arquitetônico é o responsável pelo reconhecimento de São Luis como patrimônio da humanidade.

Circuito Deodoro/Madre Deus - Outro grande nó do nosso carnaval hoje é o circuito Deodoro/Madre Deus. Pela sua própria conformação física; ruas estreitas e casas baixas. Foi pensado e montado com a perspectiva estética das nossas brincadeiras, com pontos de som distribuídos pelo circuito, de volume adequado a que um não interferisse no outro, proporcionando ao público uma diversidade de sons, cores e formas, convivendo harmoniosamente no mesmo espaço. A nossa síndrome provinciana transformou este espaço numa reprodução fajuta das festas de carnaval com trio elétrico de qualquer lugar do nordeste (carro sonorizado, uma porção de gente amarrada vestindo uma farda, o abadá). Só que nestes locais são em grandes avenidas, com trios melhores em qualidade de som e visual. Não somos contra a experimentação de novas formas, mas temos certeza de que esse espaço é inadequado para esta forma. E este é o nosso espaço “sagrado”, pois, sua história e sua arquitetura tem a ver com as nossas tradições,por isso tem de manter as suas características.Assim propomos que se busque o lugar adequado para as brincadeiras com trios elétricos e proíba qualquer tipo de carro sonorizado no circuito, isto vale também para a “Jardineira da Cultura”, que reascende também uma velha discussão. O papel do Estado é produzir cultura ou criar condições para os fazedores da cultura?

Os carros sonorizados trazem ainda outro problema.O incomodo que os “milhares” de decibéis provocam aos internos dos três hospitais(Hospital Português,Santa Casa e Socorrão).

Programação - Algumas observações a fazer também sobre a programação. Primeiro sobre o tambor de crioula, que vem tratado com preconceito, como brincadeira menor, desde o ano 2000. Os grupos são colocados pra brincar às 17 horas, quando estão apenas os ambulantes, saem às 18 e só às 20 horas começam a chegar as outras brincadeiras. Ora esta brincadeira é a mais tradicional dos nossos carnavais, é única no Brasil e a mais procurada por quem vem de fora, pois é conhecida no resto do país.Por isso deve estar distribuída por todo espaço temporal e físico da programação.Foi um equivoco também a diminuição da programação da Praça da Saudade e a permissão para a construção de camarotes exclusivos, quase ou nunca utilizados, enfeiando o espaço.Propomos que neste espaço continue tendo shows, criando opção ao Ceprama que está congestionado e perigoso.Neste horário,das 17 às 19h,é importante montar uma programação que tenha como alvo o público infantil,pois nesta hora o circuito tem um público menor e fica mais fácil dos pais saírem com seus filhos e se divertirem com a nossa forma de brincar o carnaval,construindo os nossos foliões para as futuras gerações.

Quando em 1986, com o espetáculo “Súditos da Folia” quando começamos a brigar por um carnaval nosso, diverso, criativo e espalhado pela cidade, dizíamos sempre; “Ninguém vem pra São Luís ver escolas de samba”. Hoje, montando o “Te Gruda no Meu Fofão” voltamos a dizer. “Ninguém vem pra São Luís ver trio elétrico”. Se o governo pretende trabalhar o nosso carnaval como um produto para a geração de emprego e renda, deve corrigir rapidamente a sua proposta, pois já começa a divulgar uma coisa e vender outra.

NELSON BRITO - Coordenador de Artes Cênicas do Laborarte

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