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Editorial
Desdobramento de casos policiais

Desdobramento de casos policiais

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Data de Publicação: 16 de março de 2005
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A execução em Buriticupu de cinco pessoas, sábado último, por dois bandidos num suposto acerto de conta no tráfico de drogas, repercutiu menos do que a morte do prefeito de Buriti-Bravo, João Henrique Leocádio, e das acusações de torturas praticadas pela Polícia no povoado Juçaralzinho em Vitória do Mearim.

Os mortos em Buriticupu – quatro mulheres e um homem – pertenciam ao mundo cão e viviam perigosamente. A Polícia ainda não revelou a causa da chacina. Foram encontradas drogas, e não se descarta a motivação passional.

Em Buriti Bravo, a cidade ainda está chocada e a população se revolta com a versão de suicídio na morte do professor Leocádio. Como uma pessoa se suicida na melhor fase de sua vida? Leocádio convivia harmoniosamente em família e nestes primeiros meses de seu mandato se dedicava à administração do seu município. Em companhia de um vereador, ele veio a São Luís em busca de segurança para sua cidade. Seus amigos, em Buriti, sabiam que ele estava ameaçado de morte e se deslocou à capital para pedir segurança. Cidadão pacífico, mas, por estar ameaçado, Leocádio adquiriu um revólver e só saía de casa armado. Quem o ameaçava? Para esta pergunta ainda não há resposta. Manso por natureza, sem ser covarde, Leocádio se atritava apenas no campo político, porque combatia o grupo que dominava o seu município há mais de 10 anos.

Em 2000 perdeu a eleição para seu rival Wellington Coelho. Em 2004, numa campanha simples que não exigiu vultosos recursos desmontou Wellington eleitoralmente. Logo que entrou na Prefeitura instaurou uma auditoria para levantar a situação administrativa do município. Com isto despertou revoltas mudas, confidenciam seus amigos.

Mesmo se dizendo ameaçado, Leocádio andava sem segurança ou “amigos de confiança” e não alterou o seu cotidiano. No dia em que foi morto, chegou em casa sem aparentar temor, atendeu um telefonema, colocou a arma na cintura e falou para a esposa pôr o almoço que voltaria rapidamente. Sozinho, sem o motorista, entrou no carro e arrancou. Logo depois, o telefone tocou e sua mulher atendeu. Uma voz de homem perguntou por Leocádio e ela respondeu que ele saíra. Quem telefonou não se identificou e desligou. Duas horas depois o corpo de Leocádio foi encontrado numa estrada carroçável com o revólver ao seu alcance e com um tiro no ouvido direito, disparado à queima-roupa. A notícia correu rapidamente na cidade e os populares pronunciavam, pateticamente: mataram Leocádio, mataram o prefeito.

A versão de suicídio surgiu, ninguém sabe quem a criou. A trajetória da bala foi ascendente, o que sinaliza para o assassinato. O projétil no suicida quase sempre percorre trajetória descendente, ou melhor, de cima para baixo ou horizontal. Ter ou não pólvora na mão direita, pouco significa, porque a pessoa ameaçada com uma arma cravada no seu ouvido, por instinto de conservação pode tentar salvar-se, agarrando-a.

O governador José Reinaldo pediu ao Ministério da Justiça a participação da Polícia Federal, que se encontra em Buriti-Bravo investigando. A Polícia Civil do Estado também. Os falatórios envolvem a cidade e os populares apontam para possíveis culpados. Esse açodamento é normal, quando se trata de morte de figuras queridas como Leocádio. Nos anos 70, o vice-prefeito de Imperatriz, empresário Dorgival Pinheiro, foi assassinado. Figura muito popular, a morte brusca de Dorgival comoveu a população. Falou-se em crime político. Era época da ditadura militar combinada com a da pistolagem na região tocantina. Filiado ao MDB, Dorgival pertencia às hostes oposicionistas. A versão dominante era de crime de encomenda por motivação política. Os tempos passaram e se descobriu que Dorgival fora vítima de um marido enciumado traído pela esposa com ele na maior discrição.

No caso de Vitória do Mearim, onze entidades ligadas aos movimentos sociais e representantes do governo estadual estiveram na gleba “Vamos Ver”, onde se encontram os povoados Juçaralzinho, Cutuíba, Paiol, Bom Jardim e Boca do Campo. Na área, moram 265 famílias que têm seus tataravôs ali enterrados em modestos cemitérios e disputam com criadores de búfalos o espaço de suas roças.

A gleba é considerada foco de tensão e o processo de desapropriação se encontra em fase final, faltando apenas o Incra conceder a imissão de posse às famílias. O Incra indenizou ao ex-prefeito de Vitória do Mearim, Reginaldo Rios Pearce, por uma área de 1.650 hectares da gleba “Vamos Ver”. Reginaldo soltou centenas de búfalos nos campos naturais da Baixada, infernizando os lavradores, porque os animais, criados sem manejo, destroem as roças, invadem os quintais, comem as roupas, poluem as águas, compactam o solo, matam os peixes e acabam com o habitat das aves.

Desprovidos de recursos para sobreviver, os lavradores mataram algumas reses. Reginaldo comunicou à Polícia que ladrões estavam roubando o seu rebanho bubalino. Tropas se deslocaram com apoio do Grupo Tático Aéreo e prenderam nove trabalhadores e um menino de 13 anos. Houve confronto e oito homens saíram feridos. As famílias e a própria criança acusam a Polícia de cometer violência. A mais grave acusação é a de tortura a que a criança foi submetida. Os policiais deram um “passeio” de helicóptero, desceram e o amarraram, colocando-o em cima de um formigueiro.

Os três episódios são graves. O primeiro, a chacina em Buriticupu, tem característica de ocorrência policial, limitando-se a briga de bandidos; o segundo, a morte do prefeito comove ainda Buriti Bravo e exige que a polícia chegue aos culpados para acalmar o ambiente político e a sociedade; o terceiro, muito chocante, foi o desmando que policiais cometeram no povoado Juçaralzinho com a prisão e tortura de um menor, o que fere os artigos 230, 231, 232 e 233 do Estatuto da Criança e do Adolescente que está em vigor há 15 anos.

Com tanta violência, o secretário de Segurança, Raimundo Cutrim, não cruzou os braços, vem tomando as medidas necessárias para desvendar os crimes em Buriticupu, Buriti Bravo e desenvolve um trabalho especial para identificar os autores das torturas em Vitória do Mearim.

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