OTHELINO FILHO
Alguns partidos políticos, principalmente os da oposição tradicional, duvidaram
da irreversibilidade do rompimento de Zé Reinaldo com a família Sarney e, reiterando o que já foi dito, com justas razões. De fato - não há como negar e nem motivos para se tentar fazê-lo – eram muito antigas e fortes as ligações de Reinaldo com o grupo que se instalou no poder em 1966, sob aclamação popular, em atendimento à convocação das Oposições Coligadas. Enfim logravam êxito as forças da resistência, mobilizadas e organizadas através de um movimento coeso, em nome da libertação do Estado diante da opressão e dos desmandos praticados pelo vitorinismo durante 20 anos. A palavra de ordem era a construção de um Maranhão moderno, onde imperasse a lei, enquanto o desenvolvimento sustentável e a justiça social seriam mais do que metas prioritárias, o compromisso de honra dos vitoriosos, simbolizando os pilares de uma nova e promissora realidade.
Para a frustração da imensa maioria dos maranhenses, o que se viu foi tão somente a sofisticação das práticas corruptas e autoritárias e, em muitos casos, ainda mais lesivas ao interesse coletivo. Especificamente no setor rural, cometeram-se as maiores insanidades, como se fossem bárbaros destruindo implacavelmente a região conquistada pela brutalidade. As negociatas com as terras públicas, a irresponsável degradação ambiental, a truculência dos pistoleiros de aluguel executando sumariamente ou escorraçando posseiros (muitos deles com direitos adquiridos), agravaram o processo crescente do êxodo forçado dos camponeses para as cidades e, por isso mesmo, muito mais danoso.
Pela dimensão das terras saqueadas e entregues aos latifundiários, o que sobrou para os agricultores, além dos conflitos ainda existentes, governantes do tipo Roseana/Jorge Murad, atingindo limites aparentemente insuperáveis de desumanidade, decidiram inviabilizar. Desarticularam todo o sistema de apoio técnico, financeiro e de extensão rural para selar definitivamente a sorte desses anônimos heróis da resistência no campo. José Reinaldo e sua equipe vieram ao encontro desses maranhenses historicamente discriminados e perseguidos. Em parceria com o governo federal, elaboraram um audacioso projeto de agricultura familiar que será consolidado a partir da autorização do Senado Federal para que o Estado do Maranhão contrate um empréstimo de US$ 30 milhões (e contra-partida de US$ 10 milhões), junto ao Banco Mundial, para enfrentar o drama de cerca de 400 mil camponeses que vivem abaixo da linha de pobreza, apresentando os piores indicadores sociais do Brasil.
Convém ressaltar – para que fiquem definitivamente gravadas na memória coletiva – as maldades de que ainda se valeria a família imperial para boicotar a administração estadual, desdenhando do sofrimento de quase meio milhão de humildes lavradores. Um dos últimos atos como presidente do Senado, ao perceber a impossibilidade de rejeitar a matéria no plenário, pois as lideranças já haviam se comprometido em aprová-la na última sessão deliberativa, Sarney engavetou o projeto através do qual seria autorizada a contratação do empréstimo junto ao Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD).
Diante da perversidade consumada, como se sabe, o governador e a grande maioria dos deputados estaduais e federais se reuniram com o novo presidente do Senado. Apelaram à sensibilidade social e até à “nordestinidade” (estado de espírito que expressa, além do amor, a repulsa pela discriminação historicamente imposta à região, até por filhos desalmados) do alagoano Renan Calheiros. Cumprindo a palavra empenhada com representantes da classe política responsável do Maranhão, Calheiros colocou o projeto novamente em pauta. Para a surpresa geral, senadores de outros estados, amigos do clã Sarney, apresentaram emendas à propositura original, adiando mais uma vez a sua aprovação. É triste se verificar tamanha ingratidão a um estado e a uma população dos quais uma única família sugou a maior concentração de poderes político e econômico da história da República. Apesar de tudo, a luta continua!
A última jogada para confundir a opinião pública diz respeito à indicação de Roseana para o ministério de Lula. Nesse caso, estão subestimando demais a inteligência dos maranhenses. Atribui-se a José Sarney o título inédito no planeta terra de maior oportunista político de todos os tempos. Fenômeno (reprovável, mas obviamente curioso) que teria levado estudiosos a se debruçarem em reflexões profundas na tentativa de compreender como Sarney conseguiu, por tantos e ininterruptos anos, desafiar a lógica política indiferente ou acima de todas as suas implicações éticas, morais, filosóficas, sociológicas etc.
Identificaram, agora, os primeiros e sucessivos sinais de que o recordista mundial de malabarismo político foi finalmente traído pela curva decadente. O seu grupo perdeu duas eleições seguidas no Maranhão: o pleito municipal, em que ninguém da família foi vitorioso, e a disputa pela mesa diretora da Assembléia Legislativa - nos dois casos com humilhantes desempenhos. Sarney exercia, então, um dos mais influentes cargos da Nação, o de presidente do Senado. Surpresa para alguns! Apesar dos reveses estonteantes, ainda assim o velho cacique talvez cansado de guerra recusou-se a entregar os pontos, alegando não haver se envolvido nos embates. Pura balela. Todavia, o que realmente abalou o todo-poderoso oligarca brasileiro foi haver falhado na estratégia que deveria reconduzi-lo à presidência da Câmara Alta do País. Aí, sim, ele teria admitido a amigos mais íntimos que fora o seu primeiro e único erro: provavelmente fatal!
Perder os privilégios de comandar um robusto orçamento, de presidir a esfera do poder legislativo que representa os estados brasileiros e, em alguns casos, de sentar-se ao lado do chefe da Nação e de participar de importantes decisões, para ele realmente não é novidade. Já foi presidente do Senado duas vezes e presidente da República. No entanto, em se tratando do período em que se realizarão as eleições para deputado (estadual e federal), senador, governador e presidente, exatamente quando ele e os seus grupos no Maranhão e no Amapá vivem verdadeiros infernos astrais, não poderia haver pior momento para que o insuperável Sarney deixasse escapar por entre os dedos o controle da situação.
Logo ele que até em circunstâncias excepcionais no contexto político-institucional brasileiro deu a volta por cima, mantendo as rédeas do poder ou, no mínimo, girando em torno dele como um satélite gravitando em volta de uma estrela de 5a grandeza? Agarrando-se com unhas e dentes, mesmo passando por cima de pau e pedra, atropelando o que e quem se interpusesse no seu caminho? A indicação da filha mimada e voluntariosa para um ministério menos cobiçado não poderia realmente passar de simples prêmio de consolação pela postura de subserviência plena do ex-todo-poderoso Sarney diante do governo Lula. A chamada grande imprensa logo deu conta da charada e até faz pilhérias do vexame a que está sendo submetido o maior expoente da oligarquia no Brasil. (othelinofilho@yahoo.com.br).