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Data de Publicação: 11 de março de 2005
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(Bob Marley de Oliveira, pela boa piada, poderia ser filho de Chico Anysio. Falando o português claro, não “reggae”, em inglês, São Luís é Capital do Bumba-boi, desde A Balaiada. Filhos reconhecidos de Coxinho, Cândido Reis, Danavó, Nicolau Sodré, Calça Curta, Zé Garapé, e outros principais, descendemos de Cosme, Matroá, jejes, nagôs, etc.)

Quando televisionaram, em publicidade do HSBC (banco londrino), que um ator se chamava Bob Marley de Oliveira, porque seu pai (fictício) era louco por “reggae” (música jamaicana de radiola, em inglês), e São Luís, capital nacional do “reggae”, fui certinho em que, se fosse verdade, o pai-d´égua teria preferido “as pedras” incultas à escola. Em seqüência lógica, acessei o genial alemão Goethe (eternizado quanto o nosso mestiço Gonçalves Dias, por Machado de Assis) e nunca contestado em “O homem ignorante é o maior peso que a Terra sustenta”!, com que, em tempo de repertório indeciso, ilustrei redações em concursos (vestibulares e de serviço), e convencia examinadores. O obtuso, no caso, também pode ser um monge sem hábito com alguma alçada, e aí todos carecem de um bom Pai-dos-Burros. A insistência, porém, do contra-senso de que, com mais honrosas significações para a nossa Cidade, uma manifestação com linguagem alienígena, sem um quê proveitoso para a nossa riqueza de espírito, possui representação da cultura maranhense, no País, é o mesmo, consoante sabença universal, que “As montanhas estão em trabalho de parto, mas nascerá um ridículo rato”.

Vou de barra-vento. Só mesmo no Maranhão, fragilizado por decadência desenfreada, de cabo a rabo, sem um arremedo de organização cultural em defesa da alma do povo (cultura, ao pé da letra), para a ascensão de um supérfluo estrangeiro (“reggae”), e fariseus comercializar o sacrilégio e charlar o desnecessário quanto primazia. Aconteceu logo que xaroparam no rádio que os negros nativos descendiam de jamaicanos (e somos dos honrosos africanos, dos grupos bantos e sudaneses, ou gentes jeje e nagô, etc.), e que o “reggae” era a maior expressão da cultura maranhense (e nem é nossa cultura), e mataram o nosso cão de guarda, pisaram o jardim e surrupiaram as rosas. Vivenciamos a pior quadra, porque o ceticismo aos valores do conhecimento solidário só auxilia na catalisação de somenos importância e a cessação de uma massa cinzenta criteriosa em prol do crescimento de todos, como regra, e pouca exceção. Onde o campo era propício para a disseminação do humanismo, as trevas ficam mais sucessos; audaciosos que luziam pelo bem-estar dos concidadãos, jazem, e não houve seguidores com o dever de ser útil e máxima de São Francisco; a omissão, o egoísmo e a covardia tomaram assento nos sodalícios – o povo foi deixado desarmado aos ursos e corvos. As letras amareleceram e vivem mais dos que voltaram ao pó. Até falar o melhor Português nos retiraram, sem contestação, para o Rio de Janeiro, pelo famoso professor paulista Pasquale Cipro Neto, e tínhamos a convicção de que, pelo menos na linguagem, vencíamos de lambuja o Brasil inteiro. Talvez, por isso, a agência publicitária do HSBC (inglês) lascou que São Luís é capital nacional do “reggae”. Quiçá o seu essencial é só encher a pança para a evacuação; engravidar e dar à luz; abrir conta-corrente no estabelecimento de crédito, e imaginar que a Jamaica não são a pobreza e o analfabetismo sucessivos, e que estas lástimas, como alucinógenos, não são nocivas para o cérebro.

Só faltava essa irrelevância ao nosso bumba, para privilegiar o “reggae”! Ainda garimpamos jazidas do seu ouro, na Biblioteca Benedito Leite. Já sabemos que, em 1861, no jornal A Verdadeira Marmota, o Boi foi proibido pela polícia, e que, sete anos após, no Semanário Maranhense (jul. de 1868), voltou a dar o ar da sua graça, com os da Ilha, em metamorfose do pai da malhada original, inaugurando as matracas e os caboclos de pena. Coisa que meus botões deduziram compensação da negrada ressuscitar o seu essencial folguedo, sem insurgência, enquanto seus irmãos morriam na Guerra do Paraguai (1865-70). Na Guerra da Balaiada(1838-41, com Negro Cosme, índio Matroá e parceiros), toadas de bumba incentivavam os beligerantes a escorraçar daqui os portugueses e seus capachos, consoante livro da jornalista, mestra em Comunicação e ex-vaqueira do Boi (de orquestra) de Morros, Ester Marques. Perus de fora e cupinchas já podem ir para o diabo que os car- “reggae”!...

Esta súcia, que escorcha incautos, com o endeusamento do “reggae” e Bob Marley, em São Luís, faria decência, se elucidasse o autor desta que considero a canção de despedida mais bonita dos bois de zabumba. Estou mais para Alecride, legendário amo com inspiração acima da mediania, tio do entusiasta Nacional (que é vidrado num boi de matraca, e está no do Sítio do Apicum), quando seu filho mais novo puxou para o tio-avô (Alecride) e é chegado num de zabumba. Isto é engenho bissecular, não é intromissão do “reggae”, sem alma e documento, aqui! Vamos à beleza da toada: Adeus, moreninha, eu vou embora/!Saudade não vou te deixar/!Sei que foste culpada/do nosso amor se acabar/.Tem consciência, tem consciência,/que para o ano prometo voltar! Eu era criança, o boi amanhecia num domingo de julho, na Ponta d´Areia, e estou com a música, e a de Morena, que planeta é aquele,/que alumeia a Ponta d´Areia?!... (Altezas só cochilam no Português e Geografia).

A impressão plausível é de que, na ignorância de um nome celebrizado, o HSBC mandou o filme com um “filho” de um louco pelo ritmo do falecido jamaicano Bob Marley, e poderia ser do magistral humorista global Chico Anysio, cujo pai (Oliveira Paula) ilustrou muito a paisagem de São Luís. Por isso, reverencio os filhos de verdade dos que deveriam ser eternizados na admiração dos maranhenses, não Bob Marley: meu compadre cantador Zequinha (de Coxinho); João Chiador (de Cândido Reis, de Maracanã); repentista Massa Bruta (de Luís Danavó, da Maioba); cantador Neto e caboclo de pena Gildásio (de Nicolau Sodré, recentemente falecido, um dos fundadores do Boi de matraca de Ribamar); dirigente Zé Inaldo (do colossal Calça Curta, da Maioba, e que, com Papeira e Luís Parapapá, merece observar a dominação nociva dos pandeiros de náilon, no batalhão); matraqueiro Badela (do cantador Zé Garapé, legenda do Boi da Madre Deus), e os de outros reluzentes, como Meu Pai, Filipão.

Se eu houvesse nascido na Jamaica, Kingston seria a capital nacional do “reggae”! E, para a admiração de um empresário espirituoso daqui, como as crianças observadas por ele, nos EUA, falaria inglês, cedinho!...

(*)Jornalista, poeta e do IHGM.

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